terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um Assassinato Arquivado

Capítulo 2

Lisa acordou algumas horas depois. O disco girava na vitrola emitindo um ruído surdo, depois de já ter tocado todas as canções do lado A. Lisa virou o disco, colocou para tocar a primeira música do lado B e olhou para o sofá.
Aquela sala de estar lhe lembrava muitas coisas. Coisas boas. Por este motivo, foi até seu quarto, pegou um cobertor e voltou para a sala. Adormeceu ali mesmo, acordando somente no dia seguinte, perto do meio dia, enquanto lá fora, pássaros assoviavam e o sol do final da manhã irradiava pelas cortinas do cômodo.

Era segunda feira. Uma bela segunda feira primaveril. Lisa levantou-se, foi até a cozinha e começou a preparar um café. Depois, comeu um sanduíche e sentou-se à mesa. Estava triste. A casa parecia realmente silenciosa e vazia agora. Levantou-se depois de alguns minutos e foi até o quintal dar comida ao cachorro. Quando voltou, decidiu-se. Ligaria para Helena e perguntaria à ela se poderia conseguir nos arquivos do departamento de polícia os papéis sobre a morte de seu pai. Era uma cidade pequena e Lisa não acreditava que seria realmente difícil que Lena conseguisse.
Discou o número e pouco tempo depois Lena atendeu:
- Oi, Lena! Preciso do seu primeiro favor.
- Ah meu Deus, que houve?
- Preciso que você saia da delegacia e vá até o departamento de polícia ver se consegue me trazer a caixa do caso de meu pai com todos os arquivos.
- Olha, Lis, eu já falei pra você que é loucura...
- Lena, você falou que iria me ajudar, não pode me deixar na mão agora.
- Ok, ok. Vou lá no meu horário de almoço, que afinal, é daqui a pouco, pode ser?
- Pode, muito obrigado, amiga.
- De nada, agora quero que você coloque uma música bem alta nessa casa, da Gloria Geynor de preferência e cante bem alto I Will Survive enquanto limpa tudo. Faz bem!
Lisa riu e disse que faria isso. Agradeceu mais uma vez e desligou o telefone.

Helena saiu para almoçar quando faltavam dez minutos para o meio-dia. Comeu um hamburguer na lanchonete da esquina o mais rápido que pode e andou até o estacionamento da delegacia.
Dirigiu aproximadamente quinze minutos até a porta da sede da polícia da cidade. Estava tudo relativamente parado. Uns poucos seguranças e policiais zanzavam de um lado à outro por ali, afinal ainda era horário de almoço.
Lena mostrou o distintivo para o homem que estava na portaria. Um senhor relativamente velho, gorducho e com um farto bigode. Falando meio baixo, Helena disse ao velho que precisava da chave da sala onde eram guardadas as caixas com todos os casos arquivados da cidade. O homem estranhou o pedido e lhe perguntou o porque. Helena explicou que estavam reabrindo um caso e que ela faria parte da investigação.
O velho lhe pediu uma autorização por escrito e então, Helena apoiou-se na mesa, deixando o decote um pouco à mostra (ela fez questão de abrir alguns botões da camisa antes de passar pela porta) e disse com a voz mais aveludada que conseguiu fazer:
- Olha, meu superior não me deu nenhuma autorização em escrito, porque pediu que eu pegasse a caixa com pressa, durante o horário do almoço, entende. Mas eu tenho certeza de que um cara tão gentil quando o senhor, vai poder me fazer esse favorzinho. Você me passa a chave e eu lhe passo meu telefone particular.
Então, Helena deu uma piscadela e sorriu um sorriso que faria qualquer um derreter-se. O homem, enfim, concordou. Levantou-se, foi até um armário de parede atrás de sua mesa e pegou uma das chaves penduradas. Deu a Helena e estendeu um papel para que ela escrevesse seu telefone.
Helena, obviamente, deu seu telefone errado, trocando alguns números, depois andou até o elevador e apertou o número quatro. Aguardou e quando a porta do elevador se abriu, o silencio era o que imperava. Ela andou por um corredor gelado de paredes verde claras até chegar onde queria. O chaveiro que o homem lhe dera possuía duas chaves. Lena abriu a primeira porta, andou até o fundo da sala em meio a prateleiras repletas de caixas pretas com nomes e datas escritas. Chegou à uma outra porta com os dizeres: Departamento de Casos Não Resolvidos. Destrancou e abriu a porta. Acendeu a luz. As prateleiras possuíam etiquetas de papel coladas com os anos em que haviam ocorrido os casos. A primeira que Helena viu, dizia: 2000 – 2005. Conferiu mais algumas prateleiras, cada vez mais pro fundo da sala. Quando encontrou a etiqueta que dizia: 1980 – 1985, parou. Foi então, passando os olhos caixa por caixa. Até que parou em uma. Tinha encontrado. Hervik, Harold – 1985. Arquivado. Helena pegou a caixa, saiu até o corredor, não sem antes se certificar de que havia trancado tudo devidamente. Quando entrou no elevador, havia nele um policial de uns 30 anos. Ela apertou o botão do térreo. Notou que o policial havia apertado o botão do subsolo. De repente, ele disse:
- Nova investigação?
Helena, sem animação respondeu:
- Não, caso reaberto.
- Hm. Esse morto tem muita sorte de ter sua vida investigada por uma gata como você.
Nesse momento o elevador havia parado no térreo. Helena olhou para o policial, disse “Você é um tremendo imbecil” e saiu andando.
Era meio dia e quarenta e cinco minutos. Lisa morava perto dali. Daria tempo de levar a caixa até ela e assim, não entrar na delegacia com todos aqueles arquivos. Isso certamente causaria alguma desconfiança.

Lisa ouviu a campainha e se dirigiu até a porta. Quando abriu, viu Helena com aquela caixa enorme nas mãos. O sorriso que Lena possuía no rosto se esvaiu assim que ouviu a música que vinha lá de dentro. Era uma música melosa e triste de Celine Dion. Lena disse:
- Eu falei Gloria Geynor, garota e não Celine Dion depressiva.
Lisa deu uma risada e respondeu:
- Ah, você chegou tarde demais, agora a pouco estava tocando I’m Alive.
As duas riram. Lena deixou a caixa com Lisa, pediu desculpas por já ter que ir e voltou para a delegacia.

Lisa largou a caixa em cima da mesa e foi até a sala. Desligou o rádio. Voltou até a cozinha, sentou e ficou observando a caixa.
Abriu e deu uma olhada dentro. Papéis e mais papéis. Um bloco de anotações. Provavelmente devia ser do policial encarregado do caso, que Lisa soube alguns anos antes, havia morrido. Uma pasta com os dados de seu pai. Lisa deu uma olhada nas anotações, mas não passavam de trechos de depoimentos e frases desconexas com muitas abreviações que Lisa não conseguia entender. Decidiu então, subir até o sótão da casa para pegar a caixa da investigação que um investigador particular contratado pela mãe anos antes havia feito.
Depois de juntar todos os arquivos começou a lê-los minuciosamente.
Não conseguiu encontrar nada que pudesse ajudar e então se perguntou porque o pai havia sido morto naquela parte da cidade, já que não conheciam ninguém de lá. Após uma meia hora examinando as anotações do investigador particular, encontrou uma página que dizia:

Dia 10 de maio de 1996:

Depoimento de Ana Culligan, moradora que chamou a ambulância e que encontrou o corpo. Rua Del Noteu nº 200
- Nervosa. Se pergunta porque tem de contar tudo novamente já que já conversou com a polícia antes sobre esse caso várias vezes.
- Conta simplesmente que estava jantando com o marido, por volta das dez e trinta da noite quando ouviu um grito, saiu para a rua e encontrou Harold esfaqueado no chão.
- Perguntei se costumava jantar sempre tão tarde com o marido. Ela responde que o marido é médico e sempre chega tarde em casa.
Sem mais declarações.

Dia 25 de maio de 1996:

Depoimento de Edmond Hook morador de uma casa à uma rua e um quarteirão de onde Harold foi morto. Rua Lance, nº 345
Antigo padre.
Disse que conhecia Harold, pesquisar mais sobre.
Contou que não sabia nada sobre o assassinato e que a casa onde mora foi vendida à ele por Harold.
Sem mais declarações.

Lisa encontrou enfim, uma luz no fim do túnel. A tarde já ia longe quando ela finalmente parou um pouco de ler os arquivos sobre a morte do pai e foi tomar um banho. Enquanto se ensaboava teve a idéia de ir até a casa do senhor Edmond no dia seguinte. Mas antes, chegou à conclusão que precisava esfriar a cabeça. Ligou para Helena que já havia saído do trabalho há uma hora. Lena atendeu dando uma bela gargalhada e Lisa lhe perguntou onde estava.
- Oi Lis! Estou aqui no bar do Jim! Estamos todos aqui, eu, Harry, Louise, Joe e Denise!
- Posso ir até aí também? Preciso esfriar os pensamentos.
- Claro que sim! Te esperamos aqui!
Lisa disse que tudo bem, desligou o telefone e foi para o quarto se vestir. Decidiu se arrumar. Precisava de um bom chute, para que sua auto-estima voltasse à tona. Colocou um belo vestido de verão, azul escuro com uma fivela prateada na cintura. Se maquiou, colocou brincos e sapatos, pegou a bolsa e saiu de casa.
Chegando no bar, a energia era outra.
Música ao vivo, um coutry rock muito animado e risadas e mais risadas ecoavam pelo bar. Lisa encontrou logo Helena, com suas belas pernas de fora numa saia curtíssima. Cumprimentou ela e à todos e pediu um Martini. Lisa chamou a atenção de Helena e contou à ela as novidades que havia conseguido. Contou sobre o padre que iria visitar no dia seguinte e Lena lhe disse que ligaria para saber as novidades.

Depois de algumas horas bebendo, Lisa já se sentia muito mais descontraída. Notou então, que no fim do balcão havia um homem realmente muito atraente a observando. Deu um sorriso e ele então, se aproximou. Disse:
- Olá, posso me apresentar?
- Claro.
- Meu nome é Julian De Marcs. E você é a moça mais bonita que eu vi neste bar esta noite.
Lisa já estava ruborizada pelo elogio e também pela bebida.
- Muitíssimo obrigado, senhor Don Juan. Você também é bem bonito.
- Que bom que você gostou. E então, você é daqui? Nunca vi você aqui no bar.
- Sou sim. É que eu tenho andado em abstinência de diversão. Mas minha amiga Lena, parece que não. (neste momento Lena dançava loucamente com um drink na mão)
- Você é amiga da Helena? Ah, diversão pra ela nunca é demais. E você, porque nunca aparece aqui?
- Problemas pessoais... Minha mãe morreu.
- Puxa, sinto muito. Espero que esteja tudo bem.
- Está sim. Eu já me sinto bem melhor, e você, é daqui?
- Sim sou. Sou advogado de pequenos casos. Gosto dessa cidade. Sem muita agitação, bons amigos.
-Espero que nós dois possamos o ser também!

E assim, a conversa continuou noite adentro. Quando Lisa percebeu, o rapaz já estava pagando doses de tequila para ela e para Helena, que ria loucamente enquanto lançava um olhar sensual para Joe, já que estava interessadíssima nele.
A noite terminou com o novo amigo de Lisa, Julian, levando-a pra casa.
Dentro do carro antes de se despedir, Lisa deu seu telefone para ele e ele retribuiu dando o seu próprio. Saiu com muito calor do carro, com o rosto afogueado pela tequila.

Tomou mais um banho, tirou os sapatos e caiu na cama adormecendo quase que na mesma hora.
Acordou com uma dor de cabeça terrível. Eram dez da manhã. Lisa viu que dali a algumas poucas horas já seria meio dia, então se apressou em lavar o rosto, se vestir e sair para visitar o velho padre cujo o investigador havia citado no seu bloco de anotações.

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